O que acontece quando músicos de Fresno, Dead Fish, Black Pantera, CPM 22, The Mönic e NX Zero se juntam para gravar uma música? Em “Quem Você Vê?”, o resultado é uma mistura muito interessante de punk rock, hardcore, emo e metal, em que as características sonoras de cada artista aparecem ao longo da composição.Lançada no sábado, 17 de outubro, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a música apresenta um manifesto contra o bolsonarismo, em meio à mobilização de apoio à candidatura de Lula na disputa contra Flávio Bolsonaro.O projeto recebeu o apelido de Megazord, referência ao robô gigante dos Power Rangers, formado quando os diferentes integrantes da equipe unem suas máquinas para enfrentar um inimigo maior.A reunião inclui músicos de Fresno, Dead Fish, Black Pantera, Supercombo, Hateen, Gloria, BRAZA, The Mönic, Far From Alaska, Zander, Badluv e Ego Kill Talent, além de Di Ferrero, do NX Zero, Badauí e Phil, do CPM 22, e Danilo Cutrim, do Forfun e BRAZA.A quantidade de artistas chama a atenção, mas o aspecto mais interessante aparece quando começamos a identificar suas influências na própria música.“Quem Você Vê?” começa com riffs de guitarra agressivos, bateria acelerada e uma pegada de punk rock-hardcore bastante próxima do Dead Fish. As estrofes têm uma construção melódica mais reta, com frases cantadas de maneira incisiva e backing vocals em coro, recurso bastante característico do gênero.Conforme a música avança, as melodias vão ganhando contornos mais acessíveis, até chegar ao refrão. Nesse momento, a bateria assume uma condução em meio-tempo, trazendo uma sensação de maior peso, enquanto as vozes se unem em um canto coletivo bastante melódico, com aquele quê de emo dos anos 2000.Essa combinação funciona muito bem. A agressividade do hardcore encontra a dramaticidade melódica do emo, enquanto os coros dão à composição uma característica de canto de manifestação.As diferentes interpretações vocais também merecem atenção. É possível reconhecer características vocais de Black Pantera, de Dani Buarque (The Mönic), e de outros participantes, especialmente nas passagens em que as vozes se sobrepõem.Um dos momentos mais interessantes é a participação de Badauí, do CPM 22. Sua interpretação carrega aquela atitude característica do punk rock melódico da banda. A combinação de voz, guitarra e coro funciona muito bem e acrescenta uma nova temperatura emocional à faixa.Em outra passagem, a música avança para um território próximo do metalcore, com guitarras mais pesadas e vocais distorcidos, trazendo referências do Black Pantera e do Gloria. A agressividade cresce consideravelmente, até dar lugar a uma quebra mais suave, com melodias que lembram a sonoridade do NX Zero.Esse é o principal acerto musical do Megazord. As mudanças de interpretação e arranjo permitem reconhecer a personalidade dos artistas que participam da gravação. Cada um acrescenta seu próprio molho, enquanto a composição mantém uma identidade coletiva.A letra acompanha essa proposta de união. A composição começa descrevendo uma situação de desesperança, em que o indivíduo não encontra perspectivas nem caminhos para seguir.A partir daí, desenvolve uma mensagem de resistência à apatia, reconhecimento das semelhanças e fortalecimento pela coletividade.Um dos versos mais representativos é “Não vão me pegar pois não ando mais sozinho”. A frase sintetiza a transformação que a letra procura construir. A segurança do indivíduo passa a depender da presença de outras pessoas dispostas a enfrentar a mesma situação.Mas considero que o melhor achado poético está no próprio título.Ao longo da composição, aparecem referências a horizonte, caminho, recuo e avanço. São imagens relacionadas à direção que as pessoas precisam tomar. Entretanto, quando a música chega à pergunta central, o olhar muda de direção.O ouvinte é convidado a olhar para o lado e reconhecer quem está ao seu redor.É uma imagem simples, mas bastante interessante, especialmente porque encontra uma correspondência direta na reunião dos artistas. A própria formação do Megazord materializa aquilo que a letra procura comunicar.Por outro lado, a composição apresenta algumas ressalvas literárias. Expressões sobre correr contra o vento, mostrar ao mundo do que somos feitos e manter um coração batendo no peito pertencem a um repertório de imagens bastante conhecido. Contudo, dado a natureza motivadora da obra, é compreensível ser essa uma solução poética para reduzir a fricção do discurso e ampliar seu leque de alcance, ao torna-lo mais acessível e comum a todos.Também há versos cuja construção poderia ser mais precisa, além de referências um tanto gastas pelas discussões nas redes referentes a retrocesso e projetos de poder que dependem do contexto político para ganhar significado específico. Algumas bolhas alvo da mensagem podem encontrar aí seus pontos de esquiva.De modo geral, a composição tem características de uma obra de ocasião, concebida para a mobilização eleitoral. A sua linguagem privilegia a urgência e o canto coletivo. Não é obra para uma escuta contemplativa, mas sim, uma canção manifesto para trazer de forma clara e acessível a mensagem de seus autores.É justamente na interpretação musical que essas observações literárias perdem importância. A repetição das frases, os coros e as diferentes vozes transformam declarações relativamente convencionais em momentos de forte participação coletiva.O videoclipe reforça a proposta política com uma montagem de imagens reais de manifestações e acontecimentos relacionados ao governo de Jair Bolsonaro, incluindo referências à pandemia de Covid-19.A edição utiliza uma linguagem próxima dos vídeos que circulam nas redes sociais, combinando recortes de acontecimentos públicos, registros dos músicos e a interpretação coletiva da canção.Essa escolha ajuda a dar referências concretas ao discurso da letra. Termos como retrocesso e projeto de poder, relativamente abertos quando lidos isoladamente, passam a ser associados às imagens políticas selecionadas para o vídeo.A montagem também cria um contraste interessante entre o peso das imagens e a melodia dos refrões, que ganham um caráter quase de hino, com diversas vozes cantando juntas.Há uma relação direta entre a mensagem, o arranjo e o vídeo. Os coros representam musicalmente a coletividade, enquanto as imagens situam essa união no contexto eleitoral.Naturalmente, existe uma diferença entre a diversidade musical do projeto e a diversidade de pensamento político. Os participantes vêm de bandas e linguagens sonoras distintas, mas compartilham o posicionamento eleitoral defendido na divulgação.Essa distinção ajuda a compreender o alcance do manifesto.O que mais agrada em “Quem Você Vê?” é perceber como o hardcore do Dead Fish, o punk rock melódico do CPM 22, o metal do Black Pantera e do Gloria e as melodias do emo da Fresno e Di Ferrero convivem harmoniosamente bem dentro da mesma composição.O Megazord encontrou uma maneira criativa e eficaz de fazer sua mensagem aparecer na própria construção musical.Quando tantas vozes diferentes se reúnem para cantar a mesma frase, a ideia de coletividade deixa de depender exclusivamente das palavras. Ela passa a fazer parte da experiência de viver esse momento que motiva a canção.E esse é o maior mérito artístico de “Quem Você Vê?”.Assista ao videoclipe de “Quem Você Vê?”abaixo:✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














