Boulevard des Italiens é um curta-metragem mudo francês de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Registrado com o número 18 no catálogo da Star Film, é atualmente considerado presumidamente perdido. O filme é um actuality film — registro documental de cena cotidiana filmada com câmera fixa — e tem interesse histórico particular: Méliès filmou o boulevard onde seu próprio teatro estava situado, o Théâtre Robert-Houdin, no número 8 do mesmo logradouro. Em 1897, Méliès retornaria ao mesmo local para filmar Cortège du bœuf gras, Boulevard des Italiens.

Contexto Em 1896, Méliès rodou seus primeiros filmes com sua câmera artesanal, exibindo-os no Théâtre Robert-Houdin, em Paris. O catálogo da Star Film, fundada naquele mesmo ano, numerava cada título de acordo com a ordem de produção, com cada número correspondendo a aproximadamente 20 metros de negativo. Boulevard des Italiens é o décimo oitavo título do catálogo, inserido entre Place de l'Opéra (2e aspect) (no 17) e Un lycée de jeunes filles (no 19). O filme integra a fase de actuality films — cenas cotidianas captadas com câmera fixa — que Méliès produziu nos primeiros anos de atividade cinematográfica, antes de se consagrar pelos efeitos especiais e pelos trick films.

O boulevard e seu significado para Méliès O Boulevard des Italiens é um dos Grands Boulevards de Paris, construídos sobre o traçado das antigas muralhas medievais da cidade por ordem de Luís XIV. O nome tem origem no teatro da Comédie Italienne, que ali funcionou durante o século XVIII antes de fundir-se com a Opéra Comique. Ao longo do século XIX, o boulevard tornou-se o epicentro da vida social e do entretenimento parisiense, concentrando teatros, cafés de luxo, restaurantes e lojas frequentados pela elite e pela burguesia da capital. Para Méliès, o boulevard era o cenário mais imediato de sua vida profissional. O Théâtre Robert-Houdin, onde ele exibia seus filmes e realizava seus espetáculos de mágica desde 1888, ficava precisamente no número 8 do boulevard des Italiens. Ao filmar aquela rua em 1896, Méliès documentou o próprio ambiente que o tornara conhecido no mundo do entretenimento parisiense antes mesmo do cinema. Em 1924, os números 2 a 18 do boulevard — incluindo o teatro no no 8 — seriam demolidos para viabilizar a extensão do Boulevard Haussmann.

O boulevard como tema visual e artístico A relação do Boulevard des Italiens com as artes visuais precede o cinema. Em 1880, o pintor Gustave Caillebotte o representou em perspectiva a partir de uma sacada na rue Lafitte, com o recém-inaugurado edifício do Crédit Lyonnais à esquerda. Em 1897 — o mesmo ano em que Méliès retornaria ao local para filmar o *Cortège du bœuf gras* —, Camille Pissarro pintou o boulevard duas vezes a partir de uma sacada do Grand Hôtel de Russie, na esquina com o boulevard Montmartre, em obras que integram sua série de panoramas urbanos parisienses. A dimensão cinematográfica do entorno era igualmente notável: o boulevard des Italiens faz fronteira com o boulevard des Capucines, onde, em 28 de dezembro de 1895, os Irmãos Lumière realizaram a primeira sessão pública de cinema na história, no Grand Café. Méliès esteve presente naquela sessão histórica e dela saiu determinado a adquirir a tecnologia dos Lumière. Ao filmar o boulevard des Italiens em 1896, Méliès documentou, portanto, a rua onde vivia e trabalhava — e que ficava a passos da esquina que havia mudado o curso de sua vida.

Preservação Boulevard des Italiens é atualmente considerado um filme presumidamente perdido: nenhuma cópia é conhecida por ter sobrevivido. A perda é atribuída à destruição deliberada que o próprio Méliès promoveu em 1923, quando, em meio à ruína financeira, fundiu os negativos de grande parte de sua coleção para recuperar a prata contida na emulsão, e à fragilidade das películas de nitrato de celulose da época. De aproximadamente 520 filmes que Méliès dirigiu entre 1896 e 1912, estima-se que apenas 231 cópias chegaram à atualidade em alguma forma.

Referências

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